Postagens

Sexto dia

Acabou o sossego. Passou as duas semanas anteriores em São Paulo, longe da calmaria do mar e dos problemas do trabalho. Por mais incrível que pudesse parecer, a loucura da cidade grande e poluída era o refúgio ideal para a rotina. Mas já era. Precisou acordar às cinco, vestir o uniforme informal e partir para o batente, montado em sua bike vermelha. Tudo era vermelho e amarelo no seu dia a dia, sem deixar espaço para outras cores. Por isso, a única coisa que não lamentava era olhar para aquele mar lindo de Deus. Algo que nunca tinha a mesma cor, bastava observar ao longo do dia. Estacionou seu veículo dentro da sede dos bombeiros e foi recebido com abraços e votos de um bom retorno e feliz ano novo. Sua tarefa nas primeiras horas de trabalho seria permanecer de plantão ao lado do telefone do 193. Parecia piada, mas era assim que os outros agiam. Tirou um café da máquina, amargo e forte, e sentou-se na banqueta de ...

Quinto dia

Durante a caminhada da manhã, ela passava sempre pelos mesmos lugares. Como se seguisse um roteiro. Fazia parte do trajeto os guarda vidas do corpo de bombeiros. Ela procurava diminuir o ritmo dos passos ao cruzar o trecho do local apenas para observar como era o início do trabalho ali. Tudo vermelho e amarelo. O portão, na maioria das vezes, trancado, mas a porta interna aberta, dando visão para os dois lados da construção: de um lado a rua, do outro a praia. Nunca parou para conversar, apenas trocou uns esporádicos "bom-dia", com os rapazes vestidos de bermudas amarelas a camisetas regatas vermelhas. Mas aquele local a fascinava. Ela nunca entendia os motivos de seus sentimentos, mas os garotos ali a fascinavam como nenhum outro de qualquer lugar. Por um momento, ao longo de seu  caminhar vagaroso, uma sirene soou, portões foram abertos, e a ambulância do corpo de bombeiros partiu bem às suas costas. Houve uma troca de olhare...

Quarto dia

Nem sempre precisamos acordar de bem com a vida. Às vezes, abraçar a melancolia ajuda a nos libertar de sofrimentos futuros. Sempre fui essa massa de contradições. Sempre tive meus momentos de mau humor e de querer me isolar do mundo. Curtir uma deprê de modo bem egoísta. Tudo bem. Não significa que vou me atirar da ponte ou dar um tiro na cabeça de alguém. Significa apenas que preciso ficar sozinha e me reencontrar. As férias são uma oportunidade perfeita para isso acontecer. Basta uma caminhada à beira-mar e a leitura de um livro de romance fantástico atrás do outro que esse sentimento de me isolar do mundo se torna passageiro. #ggmaffra #100palavraspordia #quartodia

Terceiro dia

Os olhos se arregalaram e ela saltou para traz, pegou o papel toalha em cima da mesa, limpando a mancha de café que arruinava sua regata. —  Desculpa, prima! Não tive a intenção de te assustar... — Achei que você estivesse em seu quarto. — Já fiz minha caminhada da manhã. Amanda fechou a cara e retornou ao quarto, buscando na mala de viagem uma camiseta que não cheirasse a café e, ao mesmo tempo, escondesse a sua bunda. Da porta do quarto, Ana observava a prima. — Ultimamente, você caminha concentrada em qualquer coisa, menos na sua companhia. — Eu sei, deixa pra lá. Tô indo. Amanda saiu do apartamento, batendo a porta atrás de si. Observou que o céu espelhava seus pensamentos: cinza, com nuvens carregadas. Não veria o mar da cor de prata derretida como nas manhãs em que o sol permanecia soberano no céu. Tudo bem. A vida era assim mesmo, num dia sol, no outro c...

Segundo dia

Na escuridão do quarto, o movimento das hélices dos ventiladores abafam o cantar dos pássaros que despertaram para mais um dia. Leva um tempo para que ela deseje se levantar e entrar no seu costume de todas as manhãs. Sua vida sempre fora pautada na rotina, nada de novo, nada de imprevistos ou de fazer algo diferente. O celular no silencioso para que ninguém seja capaz de atrapalhar o seu descanso. Observou a tela, 06:34, o mesmo horário de ontem ao fazer esse mesmo movimento. Na janela de madeira, o reflexo do sol a convidando para seu passeio matinal.  Tudo bem. Nada de novo. Trocou a camisola de algodão pelo shorts e a camiseta, calçou os tênis e saiu do quarto para sua xícara de café. Sua vida era assim: cheia de clichês que precisavam acontecer para que mais um dia surgisse. Mas dentro de toda a previsibilidade, uma tosse rouca e familiar a fez derrubar o café em sua roupa. #100palavraspordia #ggmaffra #guac...

Primeiro dia

Mais uma manhã. Meu coração grita "férias!", ao mesmo tempo que faço uma prece silenciosa agradecendo pela dádiva de poder ver aquele mar me acompanhando ao longo de minha caminhada. De um lado o sussurro das ondas do mar. Do outro, o cantar excitado dos pássaros. "Cuidado com a família dos Quero-quero, eles podem te atacar", a memória das palavras de minha mãe me recordam ao ver o macho buscando por sua cria ao longo das sombras rendadas da árvore. Ignoro tudo ao meu redor, focada apenas no exercício. O ar entra e sai do corpo, a garrafa de água mineral como o suporte para exercícios aeróbicos para os braços. Sigo em frente, nada me abala. Nada atrapalha os instantes transcendentais do meu merecido descanso. Um "bom dia" passa de bicicleta, o portão da sede dos bombeiros range quando um deles chega para bater o ponto. E sigo meu caminho. Sei que não será eterno. O implacável momen...

Manhã

Imagem